Revista História em Reflexão
Vol. 1 N.
3 Jan/Jun 2008
ISSN 1981-2434
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Apresentação
A terceira edição da Revista
Eletrônica História em Reflexão, traz num primeiro
momento o Dossiê sobre História Cultural. A ampla gama de
estudos que cercam a historiografia que relega suas pesquisas à
história cultural se destaca nas universidades brasileiras. Grande
parte dos programas de pós-graduação em História
possuem disciplinas destinadas à pesquisa em práticas culturais,
cultura e história cultural, bem como há uma grande difusão
da temática em eventos acadêmicos. Um dos grandes méritos
da linha de pesquisa é por envolver as mais diversas áreas
de pesquisa, fornecendo assim estudos interdisciplinares, o que enriquece
ainda mais as discussões teórico-metodológicas acerca
dos temas.
Os trabalhos aqui apresentados contribuem em grande parte para mostrar
essa diversidade de estudos em torno da Cultura, levando em consideração
as diversas lacunas existentes nessa historiografia que há pouco
tempo tem se voltado para novos objetos, novos problemas e novas abordagens
– como bem destacaram Jacques Le Goff e Pierre Nora. Também
mostram as mudanças historiográficas ocorridas no Brasil
nas últimas décadas, quando se tem a possibilidade de encontrar
um campo fértil para a injeção de novidades, como
muito bem denota Peter Burke em “Variedades de História Cultural”,
e que possam ser externalizados para a comunidade acadêmica e para
o público em geral, por meio desse veículo de difusão
de idéias.
Num segundo momento e de mesma importância, trazemos artigos com
temas livres e que tratam das complexidades historiográficas que
permeiam a disciplina. Sem demoras passamos há apresentar os trabalhos
publicados nessa edição de História em Reflexão.
Antonio Marcos Myskiw, estuda o cenário cultural e intelectual
de Curitiba/PR, entre os anos 1870 e 1920, com ênfase na produção
literária de alguns intelectuais paranaenses; na importância
das casas tipográficas, das oficinas de redação dos
jornais e de seus respectivos editores para a construção
de hábitos de leituras na população curitibana; nos
leitores e nas práticas da leitura, em seu artigo intitulado “Curitiba,
‘República das letras’ (1870/1920)”.
No texto “Ipes e Ibad: A crise política da década
de 60 e o advento do Golpe Civil-Militar de 1964”, Carlos Fellippe
de Oliveira busca verificar as diferentes fases do Instituto de Pesquisas
e Estudos Sociais e do Instituto Brasileiro de Ação Democrática,
entre os anos de 1959 e 1966. Busca ainda compreender o arcabouço
ideológico que formou tais institutos. A crise política,
culminando na total paralisia do poder de decisões do parlamento
brasileiro, propiciaria a implantação de um Estado burocrático-autoritário.
Investigando de que forma o IPES e o IBAD se instalaram no governo pós-64,
assumindo a formulação de diretrizes básicas para
a nova administração.
Francisco de Assis, em “Comunicação vertical na Igreja
de Pedro: uma história crítica do jornal da Diocese de Taubaté”
pontua dois objetivos distintos para seu artigo. O primeiro recupera a
trajetória do jornal O Lábaro, publicado pela Diocese de
Taubaté desde 1910; o segundo mostra, por meio da leitura crítica
de sua história, como os líderes da Igreja Católica
utilizaram tal mecanismo, ao longo de quase 100 anos, para disseminar
suas idéias.
Marcelo Souza Oliveira mostra como a elite baiana no inicio do século
XIX, passou por um período de dificuldades econômicas e sociais
em decorrência do declínio das atividades agrícolas
de exportação. Levando muitos membros da elite letrada a
escrever textos sobre os saudosos tempos de opulência e abastança
dos agricultores do Recôncavo. A escritora Anna Ribeiro (1843-1930),
era membro desse grupo. O objetivo do texto é fazer uma releitura
do mundo em que Anna Ribeiro viveu e do grupo com o qual se identificou.
Visa ainda oferecer fundamentos para a interpretação da
literatura produzida por Anna Ribeiro, no artigo denominado “Uma
Senhora de Engenho no mundo das letras: História, memória
e identidade cultural em Anna Ribeiro de Góes Bittencourt (1843-1930)”.
Em “Estorvo: uma crônica interrompida”, Marcelo Pessoa
realiza um breve estudo da obra Estorvo, de Chico Buarque, tentando estabelecer
uma relação desse texto com o gênero literário
crônica. Realiza ainda uma abordagem da representação
literária da subjetividade sócio-cultural e histórica
do Brasil contemporâneo.
Marcos Leandro Mondardo mostra como os caboclos tiveram uma importância
muito grande, enquanto indivíduos que ocuparam diversas regiões
do Brasil. No Sudoeste paranaense, os caboclos tiveram participação
no processo de (re)ocupação. Busca no artigo discutir elementos
da territorialidade cabocla no Sudoeste do Paraná, e demonstrar
os processos que se desenrolaram através da migração
direcionada de gaúchos e catarinenses para a referida região.
No seu artigo intitulado “Os Caboclos no Sudoeste do Paraná:
de uma “Sociedade Autárquica” a um grupo social excluído”.
No texto “Santidade, jejum e anorexia na História”
notaremos que na atualidade a anorexia é classificada como um transtorno
alimentar caracterizado por limitação da ingestão
de alimentos, devido à obsessão de magreza e o medo mórbido
de ganhar peso. Mesmo não sendo conhecida por este nome, é
possível detectar a presença desta doença no Ocidente
a partir do século XII. O jejum religioso, prática comum
naquela época, configurava-se como uma forma de aproximação
com Deus, sendo recorrente entre as pessoas consideradas santas. A autora
Maria Valdiza Rogério Soares tem como objetivo analisar a prática
da restrição alimentar como atributo da santidade, traçando
uma relação entre aquela e a anorexia na história.
No texto intitulado “O êxodo do hebreus segundo historiadores
e arqueólogos: ênfase na perspectiva minimalista a partir
da obra de Finkelstein e Silberman”, Josué Berlesi procura
analisar as interpretações de historiadores e arqueólogos
a cerca do evento bíblico do êxodo hebraico. O autor propõe-se
a sua abordagem que privilegie a analise teórica minimalista.
Em seu artigo “Revisitando A Retirada da Laguna: um debate entre
a Memória, História e Turismo” os autores Carlos Alexandre
Barros Trubiliano e Carlos Martins Júnior buscam a partir da ciência
histórica, discutir as revisões da obra A Retirada de Laguna,
que vêm sendo realizadas com o objetivo de seu aproveitamento turístico.
Além disso os autores sinalizam alguns elementos que podem ajudar
a garantir o sucesso de uma trilha turística cultural baseada nos
eventos descritos por essa obra.
Paulo Raphael Feldhues em “Modernidade, Cultura e Poder: Aspectos
da cidade do Recife durante o Estado Novo” exibe como o golpe de
1937 levou Agamenon Magalhães à interventoria do estado
de Pernambuco. A política cultural empregada por Agamenon permitiu
que a modernidade consagrasse seus moldes autoritários. O objetivo
do autor é analisar a relação entre as práticas
cotidianas e a importância dada à visão do outro na
sociedade recifense estadonovista, a partir das representações
simbólicas contidas em propagandas privadas e eventos sociais do
período.
No Artigo “Cultura popular no imaginário brasileiro e latino-americano:
caminhos possíveis de reflexão teórica”, Sérgio
Campos Gonçalves com um olhar direcionado àqueles que se
iniciam nas pesquisas sobre representações do popular no
imaginário brasileiro e latino-americano, estabelece o objetivo
de apresentar um pequeno guia panorâmico e bibliográfico
das discussões teóricas acerca das aplicações
do conceito de cultura popular.
No artigo “História da Idéias – em torno de
um domínio historiográfico” José D’Assunção
Barros faz uma análise panorâmica desta modalidade historiográfica,
principalmente de suas relações dialógicas com a
História Cultural e a História Política.
Em conjunto as autoras Fabíola Andrade Pereira e Vivian Galdino
de Andrade procuram mostrar como na contemporaneidade a educação
popular tem ganhado destaque, sobretudo no que se refere a suas perspectivas,
enquanto prática pedagógica e uma teoria da educação
cuja concepção tem sido uma das mais belas contribuições
ao pensamento pedagógico universal. Sua fundamentação
tem contribuído positivamente na construção de novas
formas de fazer política, de pensar e fazer democracia. Neste aspecto,
surgem emaranhados de questões que evocam a necessidade de pensá-la
como uma busca, um produto histórico, nos levando a lançar
algumas idéias para renovar antigas discussões, por meio
do texto denominado “(Re) pensando a educação popular
e suas perspectivas diante da construção da escola cidadã”
a análise busca compreender o campo da educação popular
sob a perspectiva de uma educação emancipatória.
Inaugurando uma nova seção na Revista troux
emos a polêmica acerca do cinema
nacional em que Ricardo Corrêa Peixoto denomina de “Tropa
de Elite: Realidade ou Narcisismo às Avessas?” O presente
texto tem como força motriz, o firme desejo de promover a confrontação
entre as concepções moralistas e inflexíveis, em
relação ao trato dos usuários de drogas apresentados
no filme, cuja truculência e implacabilidade inviabiliza o diálogo
e, por conseguinte, um melhor entendimento dessas “anomalias”
que não são meramente questões urbanas, sociais,
culturais, mas transitam nas dimensões existenciais da humanidade
em todo globo e em todos os tempos.
A Professora Doutora Marieta de Moraes Ferreira nos brinda com uma entrevista
dando um panorama geral da História Oral na atualidade. Entre outros
elementos elenca uma série de questões relacionadas à
historiografia nacional e internacional, como a história do presente,
breves reflexões sobre a historiografia contemporânea, algumas
questões metodológicas e assim por diante, apresentando-as
na íntegra.
Por último trouxemos as seguintes resenhas: do livro organizado
por Gilson Porto Jr, intitulado “História do tempo presente”,
resenhado por Gabriele Daiana Thiecker; a resenha feita por Nataniél
Dal Moro, do livro “O jogo das diferenças: o multiculturalismo
e seus contextos”, dos autores Luiz Alberto Oliveira Gonçalves
e Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva e por fim a resenha do livro
de, Matthew Restall “Sete Mitos da Conquista Espanhola” elaborada
por Maurício Tadeu Andrade.
Boas leituras!
Leandro Baller
Thiago Leandro Vieira Cavalcante
Editores
Dourados - Verão de 2008.
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